domingo, 8 de março de 2009
Homem, a partir de agora cometi o seu primeiro pecado e aos teus braços me entrego ao Mefistófeles moderno: gosto. Sabe, a gente precisa de um corpo de homem. Mulher também precisa se dar e não pode ser qualquer corpo, mas um desprendido das coisas boçais, porque depois vai ficar em mim o cheiro. O calor diabólico penetrando e nem sabia nome, nem conhecia a louca doçura do beijo, nem conhecia nada, nem falava palavrões. Não sei o seu nome, aquela pausa, reservei para te olhar e me esqueci de perguntar em que empresa trabalha, e se é capaz de cuidar de uma família, pois, já que vou levar o seu cheiro, então necessito saber o que você sabe rezar: a minha família sabe rezar tudo, é tradicional, mas agora eu não sei na-da. Sei que você veio insolente de lugar nenhum e vagabundo me salvou nesta rua Treze de Maio que venho pela primeira vez. As pessoas indo e vindo quando sempre acreditei que a vida terminasse às dez da noite. Confesso que estou zonza e em ti achei a minha lateralidade, o meu ponto de equilí-brio. Mas perco o meu eixo quando cruzo tantos olhares. Caí, sem nenhum propósito, caí e ao cair me deixei aos teus braços e encontrei um escape, um ladrão de mim, o meu ladrão, o meu porto esquecido. Não há estrelas que se possa ver sob a metrópole. As estrelas que vejo são as estrelas que crio, melhor assim. No escuro vi um brilho, era o dos seus olhos, uma atração humana. Criei Mefistófeles em ti, precisava de um diabo, de um inferno, precisava fugir do sagrado, do catolicismo, das o-bras canônicas, da religião. Gostei do sabor picante do inferno, era o gozo e me pus aturdida. Quero me deixar, sinto que quero me deixar, quero amar, pois amar é a minha única saída.
sábado, 20 de setembro de 2008
Poemas
PRÉ-SONO
Olho o neutro e nada
Espoca o crânio...
Surgem pontos negros, visionário
Uma dança muda a imagem
Sinfonia colorida, imagem do som.
Aspiração de fumaça
Fumaça parada que não se dissipa
No quarto, na visão
De ver neurônios fenecer sem formas
A se despedir do gozo.
Crise calada, cinérea
O corpo posto a dançar ilusões
Cansa a dança
Outro termo não há
Neutro, vago no imagético
Feito os tragos dados
Para se fugir do nada.
Nado eufêmico no cosmo da minha retina
Desesperado navego
Navega o inconsciente inconcebível
Até ir, devagar, para romper, e esquecer
E chegar, em fim, o sono.
O CRIMINOSO
Eles te procuram, não adianta se esconder
Fugir é balela, apenas te cansará
A tecnologia está a tua cata
Conhecem os teus vermes e micróbios.
Necessitam do teu corpo de cobaia
Precisam te matar pelo teu crime
De tentar invadir os campos sagrados do senhor
E bolinou a arma química
Não é permitido respirar o ar químico dos campos sagrados do senhor.
Você fala de Deus e todos sabem que Ele não existe
Vão arrancar a tua cabeça retrógrada
Que não consegue se adaptar, não consegue pensar o novo
Dizem que te criaram em laboratório
Um ser esquisito preso no espaço.
Você quer inventar o dinheiro e dominar o mundo com um capital
Então não tem jeito, bicho estranho!, ninguém precisa de você
O teu quociente de inteligência é pequeno
E o teu mundo não existe mais. A tua cabeça é cobaia.
Não te esqueça: o teu crime é imperdoável
Quando tentar fazer amor com as meninas na rua erma
Justamente agora que é renegada a superpopulação
O único sexo é o disgenético
Você vai morrer
Transgrediu o tempo da vida do outro,
Todos querem cem anos.
Olho o neutro e nada
Espoca o crânio...
Surgem pontos negros, visionário
Uma dança muda a imagem
Sinfonia colorida, imagem do som.
Aspiração de fumaça
Fumaça parada que não se dissipa
No quarto, na visão
De ver neurônios fenecer sem formas
A se despedir do gozo.
Crise calada, cinérea
O corpo posto a dançar ilusões
Cansa a dança
Outro termo não há
Neutro, vago no imagético
Feito os tragos dados
Para se fugir do nada.
Nado eufêmico no cosmo da minha retina
Desesperado navego
Navega o inconsciente inconcebível
Até ir, devagar, para romper, e esquecer
E chegar, em fim, o sono.
O CRIMINOSO
Eles te procuram, não adianta se esconder
Fugir é balela, apenas te cansará
A tecnologia está a tua cata
Conhecem os teus vermes e micróbios.
Necessitam do teu corpo de cobaia
Precisam te matar pelo teu crime
De tentar invadir os campos sagrados do senhor
E bolinou a arma química
Não é permitido respirar o ar químico dos campos sagrados do senhor.
Você fala de Deus e todos sabem que Ele não existe
Vão arrancar a tua cabeça retrógrada
Que não consegue se adaptar, não consegue pensar o novo
Dizem que te criaram em laboratório
Um ser esquisito preso no espaço.
Você quer inventar o dinheiro e dominar o mundo com um capital
Então não tem jeito, bicho estranho!, ninguém precisa de você
O teu quociente de inteligência é pequeno
E o teu mundo não existe mais. A tua cabeça é cobaia.
Não te esqueça: o teu crime é imperdoável
Quando tentar fazer amor com as meninas na rua erma
Justamente agora que é renegada a superpopulação
O único sexo é o disgenético
Você vai morrer
Transgrediu o tempo da vida do outro,
Todos querem cem anos.
Sonhos de Voar
Sonhos de Voar
3:18h da madrugada. Ele chegou, deu um sorriso para a vítima e atirou. Pá!, seco. Memórias, memórias.
12 minutos antes caía sobre o seu casaco lilás uma gota de vinho do Porto, um tanto quanto adocicado.
- Não há sono que me faça adormecer!
Vanessinha chegou tênue às 3:07h da madrugada. A garrafa aberta talvez esperasse por ela, vinho de rico, ficariam bêbados e nesse fim de noite o preço era reduzido, vagina de uso exaustivo: serviço completo por preço de sexo oral, anal à parte e nem pensar em beijar na boca.
- Tira a roupa e espera no corredor!
Um sonho, aquele homem era um sonho, pena que não passasse de um reles cliente. Reles, porém cheio da grana, apartamento de rico e todos os dentes na boca, que homem!
- Mal ele sabe que ainda não tomei banho. Se nem me olhou é porque vai me olhar ainda mais. Ainda mais agora que estou livre. Vou cobrar mais pelo serviço completo, o último da noite tem direito a mais tempo, posso até dormir no sofá e economizar a diária da pensão, pode até rolar beijo na boca. A Rosana falou que homens assim são os melhores, esquisitos, mas os melhores. A Bernardete falou que homens assim...
2:05h. – Que vazio!
Uma cartela de Lexotan, duas pedras de Prozac. O que não se faz para esvaziar uma garrafa de vinho! Mas o ambiente ideal é o de poder ver. E via, pelas paredes vazias, cenas coloridas, imagens materializadas pelo crânio, posto à sala em sua cadeira de madrepérola. Enfim, tudo o que pode quando se é livre. E preso às possibilidades do poder-fazer. E poder fazer pode ser esvaziar as drogas e engolir o vinho para poder fazer coisas que não dá para fazer.
12 anos antes quebrou os quadros do vernissage e correu nu pelas ruas da redondeza. O que se perguntava era como ele conseguiu se despir sem que ninguém o visse. Estava lá, todo mundo reunido, vendo e, de repente, ele, nu. Que loucura, minha santa Afrodite!
- Ele estava comigo. Aí começou ficar vermelho e quente. Nem sei se era ele ou era a colher, mas alguma coisa estava vermelha.
- Virei um pouco de lado para ver o outro lado e ele, ele já estava nu, nem sei que peça tirou primeiro. Depois do sexo eu fico perdida.
- É o que sei, se é que sei disso, pois sem meus analgésicos não sei bem o que sei. Falo, pois sem meus analgésicos tenho vontade de falar.
- As pessoas viajadas se julgam completas, completas em quê se nunca terminam as viagens?
- Acima de qualquer suspeita, acima do amor e do ódio, ou no andar de cima.
- Dependente das coisas que faziam em quadros. Os quadros sim, são realmente verdadeiros.
(Eu sou o quadro feito por alguém: gênio ou plebeu, Zé do Morro ou Orfeu; Van Picasso, Rodin Amaral, Anita Joelma... Eu sou o quadro que talvez nem exista, que talvez nem tenha sido pintado pelo artista).
- Artista muito gênio não se compreende, é só gênio. Aliás, é um merda que sabe muito bem de tudo.
2:45h ligou para um disk-putas clandestino: - AAAlô!
- Qualquer uma, desde que seja Vanessa.
Ana Maria, que veio de Minas, precisava de grana, era Bebete, mas mudou o nome para Vanessa e como não houvera mais clientes, que bom faturar o último. Dar era o ofício: o primeiro era o mais difícil e o último um sacrifício.
– Ele vai pagar a condução?
13 de agosto, meio dia e meia, som da campainha. 11 meses antes quando o oficial de justiça entrou no apartamento adquirido no nono andar, todos têm direitos a apartamento no nono andar, 2 semanas depois se dizia inocente pelo distúrbio causado na Praça do Pôr do Sol, quando nu e totalmente pintado de rubro, Deus sabe o quanto ficou horrível pintado de rubro, mas ele gostava e se dizia representante da nova era: ao sair atropelou um passante. Atropelar um passante é crime.
- Acidente e acidentes acontecem. O cara nem morreu!
3:12h a menina passava pedra ume na vagina.
- Se eu tivesse uma pia ou uma bacia, ficaria mais fechadinha!
E se limpava com resto de papel e cuspe, gato faz isso e ninguém reclama.
- Causaria melhor impressão, mas o fedor é fraco.
Aproveitava o tempo vago, um chiclete novo sabor hortelã, injetava uma vaselina no ânus e...
- Se ele quiser cu, tiro mais vinte na boa.
Separava a cartela de três preservativos:
- Sabe-se lá com quem esses homens andam!
Retocava o batom nos lábios.
- Todo homem gosta de ver o membro enfeitado.
E treinava em dizer: - Vamos lá meu bem!
3:09h ele pegou a pistola da gaveta do criado, uma sinfonia seria bem vinda, mas o silêncio pode gerir uma bela canção.
3:13h foi à cozinha tirou do vazo a rosa vermelha murcha.
- Tenho um minuto para adorar o vermelho
3:14h o cabo da rosa é afixado no cano da pistola, não há nada que não se possa mudar de aspecto. As coisas são naturalmente mortas quando morrem e se perdem no passado. Não há lembranças que reponha a matéria.
3:15h ajoelha no genuflexório de mogno na copa. Mistura Augusto dos Anjos com Salmo 23: coisas como “cancros do Senhor é meu pastor” e “ Refrigera a minha alma para proteger meus vermes pútridos”.
3:17h terminava a reza ou o cochilo ou algo assim, terminava, enfim.
3:18h – Vamos lá meu bem! O que é isso...
Um minuto para adorar o corpo da mulher, um segundo, dois segundos, três segundos, que pé, que saco, o pá do tiro ecoou nos ouvidos por segundos, que saco!
3:19h beija os lábios de batom da menina “Vanessinha”. Fúria profissional com direito a trejeitos, a menina caída, mesmo morta ainda quente, o sangue ou a flor é o verdadeiro vermelho? - Amém.
Sonhos de voar.
Pela madrugada, estrelas omissas são falsas, estrelas coloridas são verdadeiras. Prédios ao redor são falsos.
Seres estranhos e coloridos de borracha caminham rua afora: verdadeiros
Sangue escorrendo de um corpo de mulher pendurado no parapeito, gota a gota, conta as gotas, estancam as gotas: falso
Vermes de meio metro a passear pelas calçadas são verdadeiros. Verdadeiros vermes em forma de vermes, são vermes, certamente.
Cordoalhas amarradas nos tornozelos da morta, Lembrança de Nossa Senhora de Aparecida, O sangue de Jesus tem poder: falso
Homem-aranha subindo a parede e carregando a andróide de Blade-Raner dentro de um saco transparente procurando apartamento vago sabe-se lá para que: verdadeiro.
Sonhos de voar.
Manequins computadorizados, energia eterna, não se desligam nunca, dançam U-2, mulheres obesas tocam violinos, vespas gigantes a sobrevoar galerias, homens de chapéus preto tocam a Nona Sinfonia, homens negros, brancos, cara de ostra e cor de madrepérola. Gotas vermelhas de um corpo explodem no chão. Erupção no concreto se transformando em quadro, tela de céu cinéreo convidando ao encanto, ao abandono, à vontade ilícita de voar, de transgredir o tempo sul-realista. Nada de sul-realista, a coisa aqui é isso, e pronto.
Nalguma hora da madrugada um salto.
William Santana
3:18h da madrugada. Ele chegou, deu um sorriso para a vítima e atirou. Pá!, seco. Memórias, memórias.
12 minutos antes caía sobre o seu casaco lilás uma gota de vinho do Porto, um tanto quanto adocicado.
- Não há sono que me faça adormecer!
Vanessinha chegou tênue às 3:07h da madrugada. A garrafa aberta talvez esperasse por ela, vinho de rico, ficariam bêbados e nesse fim de noite o preço era reduzido, vagina de uso exaustivo: serviço completo por preço de sexo oral, anal à parte e nem pensar em beijar na boca.
- Tira a roupa e espera no corredor!
Um sonho, aquele homem era um sonho, pena que não passasse de um reles cliente. Reles, porém cheio da grana, apartamento de rico e todos os dentes na boca, que homem!
- Mal ele sabe que ainda não tomei banho. Se nem me olhou é porque vai me olhar ainda mais. Ainda mais agora que estou livre. Vou cobrar mais pelo serviço completo, o último da noite tem direito a mais tempo, posso até dormir no sofá e economizar a diária da pensão, pode até rolar beijo na boca. A Rosana falou que homens assim são os melhores, esquisitos, mas os melhores. A Bernardete falou que homens assim...
2:05h. – Que vazio!
Uma cartela de Lexotan, duas pedras de Prozac. O que não se faz para esvaziar uma garrafa de vinho! Mas o ambiente ideal é o de poder ver. E via, pelas paredes vazias, cenas coloridas, imagens materializadas pelo crânio, posto à sala em sua cadeira de madrepérola. Enfim, tudo o que pode quando se é livre. E preso às possibilidades do poder-fazer. E poder fazer pode ser esvaziar as drogas e engolir o vinho para poder fazer coisas que não dá para fazer.
12 anos antes quebrou os quadros do vernissage e correu nu pelas ruas da redondeza. O que se perguntava era como ele conseguiu se despir sem que ninguém o visse. Estava lá, todo mundo reunido, vendo e, de repente, ele, nu. Que loucura, minha santa Afrodite!
- Ele estava comigo. Aí começou ficar vermelho e quente. Nem sei se era ele ou era a colher, mas alguma coisa estava vermelha.
- Virei um pouco de lado para ver o outro lado e ele, ele já estava nu, nem sei que peça tirou primeiro. Depois do sexo eu fico perdida.
- É o que sei, se é que sei disso, pois sem meus analgésicos não sei bem o que sei. Falo, pois sem meus analgésicos tenho vontade de falar.
- As pessoas viajadas se julgam completas, completas em quê se nunca terminam as viagens?
- Acima de qualquer suspeita, acima do amor e do ódio, ou no andar de cima.
- Dependente das coisas que faziam em quadros. Os quadros sim, são realmente verdadeiros.
(Eu sou o quadro feito por alguém: gênio ou plebeu, Zé do Morro ou Orfeu; Van Picasso, Rodin Amaral, Anita Joelma... Eu sou o quadro que talvez nem exista, que talvez nem tenha sido pintado pelo artista).
- Artista muito gênio não se compreende, é só gênio. Aliás, é um merda que sabe muito bem de tudo.
2:45h ligou para um disk-putas clandestino: - AAAlô!
- Qualquer uma, desde que seja Vanessa.
Ana Maria, que veio de Minas, precisava de grana, era Bebete, mas mudou o nome para Vanessa e como não houvera mais clientes, que bom faturar o último. Dar era o ofício: o primeiro era o mais difícil e o último um sacrifício.
– Ele vai pagar a condução?
13 de agosto, meio dia e meia, som da campainha. 11 meses antes quando o oficial de justiça entrou no apartamento adquirido no nono andar, todos têm direitos a apartamento no nono andar, 2 semanas depois se dizia inocente pelo distúrbio causado na Praça do Pôr do Sol, quando nu e totalmente pintado de rubro, Deus sabe o quanto ficou horrível pintado de rubro, mas ele gostava e se dizia representante da nova era: ao sair atropelou um passante. Atropelar um passante é crime.
- Acidente e acidentes acontecem. O cara nem morreu!
3:12h a menina passava pedra ume na vagina.
- Se eu tivesse uma pia ou uma bacia, ficaria mais fechadinha!
E se limpava com resto de papel e cuspe, gato faz isso e ninguém reclama.
- Causaria melhor impressão, mas o fedor é fraco.
Aproveitava o tempo vago, um chiclete novo sabor hortelã, injetava uma vaselina no ânus e...
- Se ele quiser cu, tiro mais vinte na boa.
Separava a cartela de três preservativos:
- Sabe-se lá com quem esses homens andam!
Retocava o batom nos lábios.
- Todo homem gosta de ver o membro enfeitado.
E treinava em dizer: - Vamos lá meu bem!
3:09h ele pegou a pistola da gaveta do criado, uma sinfonia seria bem vinda, mas o silêncio pode gerir uma bela canção.
3:13h foi à cozinha tirou do vazo a rosa vermelha murcha.
- Tenho um minuto para adorar o vermelho
3:14h o cabo da rosa é afixado no cano da pistola, não há nada que não se possa mudar de aspecto. As coisas são naturalmente mortas quando morrem e se perdem no passado. Não há lembranças que reponha a matéria.
3:15h ajoelha no genuflexório de mogno na copa. Mistura Augusto dos Anjos com Salmo 23: coisas como “cancros do Senhor é meu pastor” e “ Refrigera a minha alma para proteger meus vermes pútridos”.
3:17h terminava a reza ou o cochilo ou algo assim, terminava, enfim.
3:18h – Vamos lá meu bem! O que é isso...
Um minuto para adorar o corpo da mulher, um segundo, dois segundos, três segundos, que pé, que saco, o pá do tiro ecoou nos ouvidos por segundos, que saco!
3:19h beija os lábios de batom da menina “Vanessinha”. Fúria profissional com direito a trejeitos, a menina caída, mesmo morta ainda quente, o sangue ou a flor é o verdadeiro vermelho? - Amém.
Sonhos de voar.
Pela madrugada, estrelas omissas são falsas, estrelas coloridas são verdadeiras. Prédios ao redor são falsos.
Seres estranhos e coloridos de borracha caminham rua afora: verdadeiros
Sangue escorrendo de um corpo de mulher pendurado no parapeito, gota a gota, conta as gotas, estancam as gotas: falso
Vermes de meio metro a passear pelas calçadas são verdadeiros. Verdadeiros vermes em forma de vermes, são vermes, certamente.
Cordoalhas amarradas nos tornozelos da morta, Lembrança de Nossa Senhora de Aparecida, O sangue de Jesus tem poder: falso
Homem-aranha subindo a parede e carregando a andróide de Blade-Raner dentro de um saco transparente procurando apartamento vago sabe-se lá para que: verdadeiro.
Sonhos de voar.
Manequins computadorizados, energia eterna, não se desligam nunca, dançam U-2, mulheres obesas tocam violinos, vespas gigantes a sobrevoar galerias, homens de chapéus preto tocam a Nona Sinfonia, homens negros, brancos, cara de ostra e cor de madrepérola. Gotas vermelhas de um corpo explodem no chão. Erupção no concreto se transformando em quadro, tela de céu cinéreo convidando ao encanto, ao abandono, à vontade ilícita de voar, de transgredir o tempo sul-realista. Nada de sul-realista, a coisa aqui é isso, e pronto.
Nalguma hora da madrugada um salto.
William Santana
terça-feira, 8 de julho de 2008
Coração Leviano - Carnaval
“Tirei
Do coração uma sombra esquecida
Tirei
Jurei
Que nunca mais amaria na vida
E assim
Pensei
Que havia em mim um sentimento perdido
Não percebi o quanto estava iludido
E outra vez amei...”
- Aumenta mais o volume, por favor!
Carmem é uma mulher caseira em fevereiro. Fevereiro, este ano, carnaval, carnaval. Carmem é uma mulher caseira dedicada ao labor da costura, do bordado, do fevereiro, do carnaval, das fantasias, da bateria, da escola. Sentadas em um banco extenso estão Carmem e outras mulheres que em fevereiro são as mães operárias bordando passames em seda, ouro, prata, no morim, para o próximo sábado. Sábado em que Carmem e tantos outros vão se mostrar na avenida do samba, Samba. Talvez rainha da bateria, detentora da ala da bateria e as fantasias só estavam recebendo os retoques finais a fim de vestirem seus personagens.
- Jogou hoje, seu Tijuco?
- Joguei não, menino. Tô fazendo o castelo e num tenho tempo. Cê vai jogar, fala prá mim. Vai pra mim.
- Tou indo prá banca. Hoji dá macaco.
- Onti sonhei com uma sogra qui nem tenho, menino. Joga em qualquer número da cobra, menino. Tó. Leva uns dinheiros prá jogar na centena e na milhar PT, menino. Pega o qui deu onti. Si ganhei ti dou uns trocados.
Guerreiros de Dom João, excelentíssimo genitor do Imperador, calça em morim e algodãozinho, ornada com fitas e galões, e o símbolo do reinado português em prata e em ouro. A camisa com o mesmo motivo e um adorno de papelão para dar a intenção de um escudo. As perucas brancas foram substituídas por chapelões que, ao invés de ostentar o símbolo do império colonizador, grafava as iniciais da agremiação com franjas pequenas e borlas douradas.
As mulheres conversam, entre tantas coisas, do carnaval que está por vir; do ensaio desta noite na quadra da escola; do enredo contando a história da nação. Carmem fala que não sabe o que é alegoria, não entende bem este negócio de alegoria. A baiana lhe explica que o que é externo, o samba enredo é externo, o samba no pé é externo, o mestre-sala e a porta bandeira, externos, a comissão de frente, a bateria e tudo o mais, o que é externo deve penetrar no motivo da escola; como o ar que se respira: isto é a alegoria. Que deve haver a harmonia para que possamos penetrar os flancos do desfile, que devemos combinar a história a ser contada com tudo o que ali foi produzido, para se desfilar procurando a apoteose.
Do coração uma sombra esquecida
Tirei
Jurei
Que nunca mais amaria na vida
E assim
Pensei
Que havia em mim um sentimento perdido
Não percebi o quanto estava iludido
E outra vez amei...”
- Aumenta mais o volume, por favor!
Carmem é uma mulher caseira em fevereiro. Fevereiro, este ano, carnaval, carnaval. Carmem é uma mulher caseira dedicada ao labor da costura, do bordado, do fevereiro, do carnaval, das fantasias, da bateria, da escola. Sentadas em um banco extenso estão Carmem e outras mulheres que em fevereiro são as mães operárias bordando passames em seda, ouro, prata, no morim, para o próximo sábado. Sábado em que Carmem e tantos outros vão se mostrar na avenida do samba, Samba. Talvez rainha da bateria, detentora da ala da bateria e as fantasias só estavam recebendo os retoques finais a fim de vestirem seus personagens.
- Jogou hoje, seu Tijuco?
- Joguei não, menino. Tô fazendo o castelo e num tenho tempo. Cê vai jogar, fala prá mim. Vai pra mim.
- Tou indo prá banca. Hoji dá macaco.
- Onti sonhei com uma sogra qui nem tenho, menino. Joga em qualquer número da cobra, menino. Tó. Leva uns dinheiros prá jogar na centena e na milhar PT, menino. Pega o qui deu onti. Si ganhei ti dou uns trocados.
Guerreiros de Dom João, excelentíssimo genitor do Imperador, calça em morim e algodãozinho, ornada com fitas e galões, e o símbolo do reinado português em prata e em ouro. A camisa com o mesmo motivo e um adorno de papelão para dar a intenção de um escudo. As perucas brancas foram substituídas por chapelões que, ao invés de ostentar o símbolo do império colonizador, grafava as iniciais da agremiação com franjas pequenas e borlas douradas.
As mulheres conversam, entre tantas coisas, do carnaval que está por vir; do ensaio desta noite na quadra da escola; do enredo contando a história da nação. Carmem fala que não sabe o que é alegoria, não entende bem este negócio de alegoria. A baiana lhe explica que o que é externo, o samba enredo é externo, o samba no pé é externo, o mestre-sala e a porta bandeira, externos, a comissão de frente, a bateria e tudo o mais, o que é externo deve penetrar no motivo da escola; como o ar que se respira: isto é a alegoria. Que deve haver a harmonia para que possamos penetrar os flancos do desfile, que devemos combinar a história a ser contada com tudo o que ali foi produzido, para se desfilar procurando a apoteose.
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